domingo, 26 de abril de 2009

O Sapato

José Palhaço, casado e com dois filhos, era um mulherengo. Sem cura e sem pudores, não era segredo que fazia questão de esconder… dos outros mas sempre da família.

Um dia, no tempo em que as auto-estradas eram uma ilusão e que as viagens se faziam por estradas sinuosas e cansativas, José Palhaço deixa a Cidade e ruma ao campo. Com ele iam mulher e filhos, na pasmaceira do pendura com pouca conversa e no sono que chega no embalo do movimento do carro. E a sogra, mulher de idade e sabedora, que se sentou mesmo atrás de José.
Após curvas apertadas e longas rectas quentes, ladeadas por campos de vegetação rasteira e árvores a perder de vista, com o sol a aquecer os rostos e a fazer semi-cerrar os olhos na busca da linha do horizonte, José sente algo estranho por debaixo do seu banco perto do pé que repousa ao lado da embraiagem. Olha para baixo, discretamente, julgando tratar-se de algo pertencente a um dos filhos e que rebolou pelo chão do carro, qual não é o seu espanto quando descobre um sapato!

Um sapato, ali, aos seus pés, dentro do seu carro. Um sapato solitário sem dono, a sorrir-lhe malandro e cúmplice como que sabendo das cambalhotas que ainda no dia anterior ele deu dentro daquele mesmo carro onde agora viajava com a família criada sob a alçada da igreja e dos dez mandamentos, os quais lhe gritavam do fundo da mente fazendo-lhe abrir os olhos de pânico. Começou a suar e até acreditou que, daquele dia em diante, ficaria com uma taquicardia angustiante.
Olhou de soslaio a mulher, que pela janela dirigia o olhar para lá da paisagem, alheia ao tumulto que se vivia ao lado e que de vez em quando suspirava tentando afastar a pasmaceira das giestas que coloriam a paisagem. Quase que se ouviam as engrenagens dentro da cabeça de José a trabalhar, procurava a todo a pressa uma solução para o problema iminente que tinha aos pés, literalmente. O que fazer? Olhou novamente para o sapato, que ele poderia jurar, lhe piscava o olho como quem diz ‘isto está bonito, sim senhor, quero ver-te a descalçar esta bota!’. José respirou fundo uma vez e outra vez e mais outra.
Com o pé encostou o sapato à porta do carro e, como quem não quer a coisa, pergunta ‘quem precisa de ir à casa-de-banho?’, questão à qual os filhos, fartos do ambiente claustrofóbico e apertado do carro berraram eus entusiasmados. José parou o carro perto dum pequeno mato com árvores e arbustos suficientes para esconder a pessoa no seu momento embaraçoso (sim porque as estações de serviço e as casas-de-banho bem cheirosas só chegaram com as auto-estradas). Discretamente agarra no sapato jocoso, desaparece da vista da mulher e da sogra e atira o sapato para o meio das árvores. Problema resolvido, podia respirar fundo e aproveitar o resto da viagem. Os Dez mandamentos silenciosos no fundo da mente.

Chegaram ao destino, cansados e entorpecidos. Todos saem do carro excepto a sogra que procura algo por debaixo do banco do condutor.
‘Mãe, o que procura?’ pergunta a mulher de José.
‘O outro par deste sapato, que descalcei durante a viagem para ficar mais confortável’ responde a sogra de José.
E como se o tempo parasse ou um calhau lhe tivesse acertado na cabeça, José olha para trás, para o carro, a boca aberta na frase silenciosa, os olhos esbugalhados no pânico que lhe subia pelas entranhas, no aperto que a taquicardia provocava e surdo com as gargalhadas dos dez mandamentos. E José teve a certeza que, se o sapato agora ali estivesse, estaria a rebolar pelo chão a rir, rindo de José e da sua lastimável figura.
E assim, numa última tentativa de sobrevivência, José aproxima-se da mulher e da sogra, agora quase de rabo para o ar à procura do ‘maldito sapato, que não pode ter ido para longe’ e perguntou, por entre os dez mandamentos, a taquicardia e os olhos quase fechados, na voz mais calma que conseguiu fazer...

‘Mas tem mesmo a certeza que trazia os dois sapatos calçados?’

1 comentário:

Suhl disse...

tal qual a minha teoria de que se 'enterram sozinhos' aqueles que tem motivos pra tal. a verdade vem sempre ter connosco. nem sempre estamos é de olhos abertos :)

mto, mto bom.

beijo :))