quinta-feira, 26 de junho de 2008

... and I quote #1

"It's often said that no matter the truth, people see what they want to see.
Some people might take a step back and find out they were looking at the same big picture, all along.
Some people might see that their lies have almost caught up to them.
Some people may see what was there all along.
And then there are those other people, the ones who run as far as they can so they don't have to look at themselves."
in GG

domingo, 22 de junho de 2008

Borboletas na Web

... é o novo projecto do Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, o Tagis.Borboletas e lagartas de borboletas vivem felizes da vida numa estufa de criação enquanto camarãs posicionadas em diversos locais as filmam nos seus afazeres diários. Comer, construir crisálias, acasalar ou pura e simplesmente esparramar ao sol numa folhinha digna (melhor que o Big Brother, na minha humilde opinião!).

O Lagartagis (nome da estufa) fica no Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural. O objectivo actual é "ensinar a biologia das borboletas e sua interacção com as plantas, contribuindo assim para despertar o interesse para a importância da conservação da natureza e da biodiversidade."
No site, para além da observação, também se aprende algo mais sobre plantas e como fazer observalção em plena natureza.

Existe algo de refrescante em ver uma lagarta de volta duma folha de madressilva!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O precário fim dos dias

Estive a ler cartas que escrevi a um tio aos vinte anos e surpreende-me como não mudei. Eu ali todo, igualzinho: as mesmas interrogações, as mesmas dúvidas, o mesmo modo de olhar os outros, de me olhar. Sou isto, assim desde o início, serei certamente isto até ao fim. Quando? Que esquisito haver fim, que inconcebível morrer. Viver também, aliás, no precário fio dos dias, desequilibro-me, não me desequilibro. Onde fui arranjar uma expressão tão pretensiosa, precário fim dos dias, tão parva. Que lugar-comum sou. Olha-te sem piedade, não te comovas contigo. Não te deixes vencer. Não te desculpes. E sobretudo não faças do que julgas ser
(e talvez sejas)
uma lágrima de vela a escorregar devagarinho, rosada, quase transparente.
Mesmo que os outros não notem tu notas. Não te dispas sem pudor. Aguenta-te, conforme recomendava o Júlio na altura em que estavas à brocha. Não
- Com um aspecto desses não te acontece nada
não
- Uma prima minha foi operada há séculos e ainda cá anda
o Júlio Pomar somente
- Aguenta-te
e eu pata aqui pata ali a aguentar-me nas canetas. Pergunta:
- E agora?
resposta:
- Aguenta-te
que é a única coisa honesta que se pode dizer a um amigo. Aguento-me, Júlio, descansa que me aguento. E estou a escrever, com o livro a sair numa facilidade de mau agoiro: desconfio sempre no caso de as palavras me chegarem depressa. Como afirmam os chineses se o pobre come galinha um dos dois está doente. Por onde comecei eu isto? Ah!, pelas cartas que escrevi. A tinta desbotou, eu não. Com as cartas, retratos. A minha mãe toda giraça. Os meus avós. As expressões idiotas que arranjamos para as fotografias, tão pouco naturais, acanhadas. Eu incluído, claro, tão acanhado quanto eles. A minha mãe não, à vontade, pinoca, o pai dela sério, com ganas de esconder-se. Não me lembro de o ver alegre, de o ver rir-se. A ideia que me ficou é que não ligávamos nenhuma um ao outro. Foi de certeza um homem infeliz, morreu cedo por delicadeza. Não acho que tenha morrido de cancro, acho que morreu de pena. Era engenheiro, trabalhava em não sei quê no Estado. Lia o jornal na varanda de Nelas e gostava de trovoadas. Trovejava e ele à janela a olhar os relâmpagos, enquanto a minha avó, a tremer de medo, rezava a Santa Bárbara e espiava as lareiras da sala, uma diante da outra, no pânico que um raio descesse a chaminé e nos reduzisse a fanicos. E o meu avô, de casaco de linho branco, a pasmar para a serra iluminada. Os castanheiros da casa, ouriços verdes que eu esmagava contra uma pedra. Céus altíssimos, vinhas e vinhas. Aguenta-te. Acabando esta crónica volto para o livro que não pára de chamar. A minha mãe de chapéu, de braço dado com os irmãos, a fitar a gente. A minha avó, de quem gostei muito. Quer dizer, continuo a gostar. E o pai da minha avó, um general de bigodes imensos, que conheci de ouvir dizer. Condecorações numa cómoda. Coisas gastas, passadas. Quanto ao presente, aguenta-te. Aguenta a felicidade, por exemplo. E lá fora uma tarde de chuva, poças de água, humidade. Como diz o provérbio chinês? Se o pobre come galinha, etc. O general até uma condecoração chinesa recebeu. Na cómoda também. Deixa-te disso, volta ao presente. Faz projectos. Inventa. Não largues um único osso que abocanhes. Pergunta:
- O senhor não é aquele escritor que me esqueceu o nome?
Isto dois caramelos na rua.
- Na minha opinião é melhor que o outro que também me esqueceu o nome
e juro que esta conversa é verdade. Apertaram-me a mão, aconselharam
- Continue
e vou continuar para me esquecerem mais ainda, enquanto eles continuaram rua fora por seu turno, acotovelando-se sempre que uma mulher os cruzava. Que poder de síntese na fórmula
- Gaja boa
que profundidade apreciativa. O primeiro caramelo
- Gaja boa
e o segundo a complementar
- Do caneco
ou seja um par de génios sucintos. Aliás a expressão gaja boa é extraordinária.
Diálogo ouvido hoje no sítio onde como a torrada da tarde, entre dois sujeitos de cerveja mini na mão:
- Ainda agora aqui esteve a filha do Gonçalves
- E que tal a gaja?
- Boa
que se prolongou num silêncio meditativo. O curioso do
- Que tal a gaja?
insistiu a pedir detalhes
- Boa ou muito boa?
e recebeu como resposta uma espiral indecisa da mini
- Boa
e um novo silêncio meditativo durante o qual me vim embora, a correr sob a chuva, deixando-os de sobrancelha franzida, a calcularem. Amanhã peço uma mini e bebo--a da garrafa. Virilmente. A espiar a filha do Gonçalves de baixo a cima. Talvez haja um grau intermédio entre o Boa e o Muito Boa e os possa ajudar na sua classificação taxonómica. No caso de esta chuva se transformar em trovoada a minha avó chega aqui e põe- -se a rezar e o meu avó aproxima-se da janela encantado com os relâmpagos. Por mim fico sentado no chão com um automóvel de corda. A aguentar-me
António Lobo Antunes in visão online

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Hanemun



"Mas éramos crianças e estávamos rodeados pelo céu do Verão, um céu demasiado grande e azul para poder fazer uma coisa tão pequena, tão mesquinha. Penso que naquele momento, eu, Hiroshi, Olive e o jardim mostrámos ao mundo algo de infinitivamente belo, como o estalar do fogo de artifício, e o mundo enamorou-se de nós."

Banana Yoshimoto